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PERSPECTIVA MACRO: Mercado teme desequilíbrio se alta do dólar se mantiver
18 de Maio de 2012 - 12h01

O governo tem sido enfático em dizer que o dólar no patamar de R$ 2 não preocupa, no entanto, analistas de mercado já veem a situação com alerta e creem que, se o processo de valorização persistir, é provável que o cenário comece a ser nocivo para a economia, em especial no que se refere à pressão inflacionária. A preocupação é legítima, segundo os analistas, porque o mercado ainda não tem um indicativo de um teto para a moeda e nem mesmo uma sinalização de em qual ponto o governo poderia voltar a atuar no controle do câmbio
 
"Tem havido muita conversa sobre qual é o câmbio de equilíbrio para a economia brasileira. É um assunto que tem sido debatido e nunca houve um consenso a respeito de qual é o nível de câmbio ideal ou certo para a economia não ser prejudicada na sua competitividade", destacou o diretor adjunto do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Walter Sacca.
 
Ele explica que as discussões variam de acordo com o segmento da indústria, indo de um patamar de R$ 1,80 a R$ 2,40.  "Mas existe uma concentração maior de opiniões que o câmbio de equilíbrio está entre R$ 2,10 e R$ 2,20  para que deixe de ser prejudicial a competitividade da indústria", destacou.
 
Neste sentido, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, disse essa semana que o atual patamar da moeda já é suficientepara que a indústria tenha uma recuperação importante, mas se subir mais, melhora. Segundo o executivo, o encarecimento da moeda americana não deve provocar aumento da inflação. "A inflação passada é baseada em serviços e produtos que não têm componentes importados", disse.
 
Para o operador da Interbolsa, Ovídio Soares, o primeiro impacto dessa apreciação do dólar é saudável, mas há, obviamente, o outro lado da moeda, que envolve o importador e o comprador de dólar. Por isso, é preciso que haja um meio termo, um movimento em que a alta estacione em algum momento. "Se o processo de alta continuar, os custos vão obviamente começar a ser repassados e o governo vai ter que agir, assim como agiu para que a moeda subisse", disse.
 
Para ele, ao invés de atuar no mercado de câmbio vendendo, em uma situação de constante depreciação do real, o governo deve retirar as penalidades que adotou há alguns meses quando o objetivo era jogar o preço do dólar para cima. 

Ontem, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) divulgou uma nota manifestando sua opinião sobre a valorização da moeda e, assim como Soares, afirmou que espera que o governo revogue diversos instrumentos de política monetária usados para conter o processo de valorização do real ante o dólar, o chamado "arsenal cambial".
 
Na visão da Fecomercio-SP, o cenário atual de intensificação da crise financeira europeia e os sinais importantes de início de recuperação de atividade nos Estados Unidos tendem a prorrogar, por muitos meses, o ciclo de valorização global do dólar e, por este motivo, o governo poderia rever algumas medidas que já não farão sentido se a valorização persistir.
 
Para a Fecomercio-SP, entre as medidas de maior impacto está a que determina que apenas os empréstimos estrangeiros com prazos acima de cinco anos sejam isentos do pagamento da alíquota de 6% do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). Anteriormente, o prazo era de três anos. Além disso, o governo elevou também o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de carrosimportados de fora do Mercosul em 30 pontos porcentuais (pp). Outra ação foi a de subir o IOF de 2,38% para 6,38% sobre as compras feitas com cartão de crédito no exterior.
 
"Para o bem do ambiente brasileiro de negócios e a continuidade dos intercâmbios comerciais, a Fecomercio-SP entende que o 'arsenal' de medidas do governo para conter o câmbio deva ser desmobilizado", destacou a instituição.
 
O gerente de câmbio da Treviso Corretora de Câmbio, Reginaldo Galhardo, acredita que, uma vez que o governo não está atuando em nenhuma dessas frentes, por enquanto, é possível que o objetivo seja de maior valorização da moeda. Neste caso, segundo ele, o cenário passa a ser preocupante. "A indústria brasileira também precisa de insumo importado, maquinário de fora e tem muitas empresas que se endividaram em dólar. Por isso, em um dado momento, com certeza vai haver repasse de preços", disse.
 
A grande questão, segundo ele, é que o governo tomou uma série de medidas para influenciar a alta do dólar e, paralelamente, houve uma piora no cenário econômico internacional, ou seja, o câmbio teve dois empurrões fortes ao mesmo tempo. "A liquidez do mercado já não está farta como estava antigamente. Se começar a faltar capital, o governo terá que pensar em uma nova abertura para compensar isso e viabilizar a entrada de dinheiro novo", disse.
 
Se o dólar se mantiver no patamar de R$ 2, o diretor de câmbio do Grupo Fitta, Fabiano Rufat, diz que o cenário ainda é benéfico, mas acredita que os especialistas do governo, apesar de dizerem o contrário, já devem estar atentos a uma possível mudança de planos caso a valorização se descontrole. "Quando a moeda estava a R$ 1,60 realmente estava fora da realidade, mas com esse patamar de R$ 2,00 acredito que há um cenário que faz mais sentido economicamente", disse. 

FONTE: AE




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